A história mostra que o sexo é a base da organização social e da construção de valores. Isso foi decisivo para a formação da hegemonia masculina.
Os papeis feminino e masculino diferenciam a corporeidade e a motricidade, por isso, um sexo se torna mais hábil em determinadas atividade do que outro. Não que seja natural, isso acontece porque o movimento é construído historicamente.
A corporeidade tem como referência modelos ligados à imagem e ao desempenho corporais que, muitas vezes, são reproduzidos até mesmo na escola. Então, muitas atividades são vistas separadas por sexo: pular corda para meninas e futebol para meninos, por exemplo.
As identidades de masculino e feminino são socialmente construídas. As diferenças impostas pela sociedade entre os gêneros não são oriundas do fator biológico, são oriundas da cultura em que as pessoas estão inseridas. Meninos e meninas tiveram e ainda têm, na maioria dos casos, uma educação corporal que tem como foco determinante suas diferenças sexuais e não incentiva a convivência entre os dois sexos.
Diferenças na prática
Foram observadas crianças do Fundamental I em suas interações do dia a dia e foram feitas algumas entrevistas com essas crianças. Elas tinham uma hora de recreação por dia. As professoras permaneciam perto delas mas não as orientavam nesse momento.
As crianças mais novas interagiam com mais facilidade, contando com meninos brincando com meninas. Na primeira série, já havia uma separação na qual meninas tinham preferência por queimada e meninos por futebol, por exemplo. Em algumas brincadeiras, havia participação dos dois sexos, como o pique. Aos meninos foi perguntado por que as meninas não participavam do futebol. Eles responderam o seguinte: "Porque elas não sabem jogar futebol e atrapalham, e quando jogam, sempre se machucam e põem a culpa na gente.(...)Elas são fofoqueiras"
Afinal, por que meninas têm menos habilidade em alguns esportes do que meninos? Essa pegunta pode ser respondida se levarmos em conta que não foram dadas às mulheres as mesmas oportunidades esportivas que foram dadas aos homens. Para você ter uma ideia, em 1941, foi promulgado um decreto-lei que dizia, em seu artigo 54º, que não era permitido às mulheres participar de algumas práticas esportivas, como o futebol, por não serem compatíveis com o seu biotipo.
Foi verificado, também, que algumas professoras reforçavam, mesmo que sem querer, a separação das crianças por sexo. Um exemplo desse fato é a separação das crianças por sexo nas filas. As professoras disseram que sempre foi feita essa separação e, por isso, elas continuavam fazendo. Além disso, um menino declarou que, segundo sua professora, meninas que ficam muito perto de meninos são assanhadas. Chegamos, então, à conclusão de que existe uma "naturalização de traços de comportamentos que se instalam no inconsciente coletivo, e passam a ser imperceptíveis" (Bourdieu, 2002, p.70)
A educação escolar é a principal responsável por processos como construção e produção de sujeitos. É aí que deve ser ensinado noções corporais que se interligam com o processo de socialização.
Em um dia, foi observado que uma menina jogava futebol com os meninos. Perguntou-se, então, a uma outra menina o porquê desse fato. Ela,então, respondeu: "Essa menina sempre joga futebol porque os meninos deixam, pois ela sabe jogar e parece um homem" o que nos faz pensar que, para algumas crianças e até mesmo alguns adultos, quando uma menina se identifica com um esporte, assume, ao olhar dos outros, uma identidade masculinizada.
Concluímos, então, que a escola, por ser a maior responsável pela formação das crianças, deve reconstruir
a realidade acerca das atividades motoras de meninas e meninos para acabar com o preconceito. Temos que, como professores, refletir sobre as convenções naturalizadas pela sociedade. Os educadores precisam estar atentos aos rituais escolares para que não se perpetue padrões designados a meninas e meninos. Dessa forma, a sociedade deixará de ser tão preconceituosa.



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